segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Ensinando e coreografando...


Bailando...não tem jeito. Seja muito ou pouco e nos lugares apropriados (que tenha tablado) é ali que se brota com mais segurança as emoções que pede cada palo após anos fazendo aulas de tudo que se pode e alcança. Aliás as aulas só terminam quando se acaba o dinheiro ou quando o corpo não responde mais.

Ensinando... conheço bem este caminho. Eu tenho a coragem e o prazer de investigar e fazer laboratórios com os alunos e  as primeiras coreografias que fiz comparei com minha primeira professora e os trabalhos que sei que ela coreografou. Perguntei, pedi ajuda de uns que me deram e outros me negaram ou riram de mim. Óbvio que estes que desdenharam não mereciam ser professores. Após anos, vejo que existe uma identidade, uma espécie de registro único que cada um implanta no seu trabalho e que leva juntos vários trabalhos anteriores, mas com sua característica; o que o faz diferente dos demais. Descobri como se deve dividir os níveis de aprendizado e qual conteúdo lhes aplicar. Desenvolvi meu método pessoal e acabei criando minha linha de trabalho. Tenho muitas influências por conta dos caminhos que passei. E a cada trabalho que ensinei, lhe dei o devido crédito quando não eram meus. Faço isso até hoje. Acho importante saudar quem nos ensinou, pois assim se homenageia o seus mestres e os deixamos para sempre na história. Isso não foi nenhum deles que me ensinou. Foi depois que meu pai faleceu (ele foi professor de Bioquímica em diversos segmentos da medicina e em várias universidades) e várias turmas que se formavam homenageando-o por isso mesmo depois de morto. Este é meu maior espelho: o exemplo de conduta com os alunos.

Ensinar é difícil porque tem que ter a humildade para enxergar seus erros técnicos para não repassá-los e não criar sujeiras que poderão interferir no futuro do artista e abrir uma lacuna para a decepção quando ele descobrir que "aprendeu errado". Ensinar o outro é fazer com que  use seu dom da Reflexão, da Escolha e da Responsabilidade, valores em falta em quase todos aqueles que ensinam alguma coisa.

Tá. O que é errado no Flamenco? Todo trabalho possui um limítrofe que se descobre com o tempo e a quantidade de diferentes cursos que se fez e faz. Então se enxerga a dimensão das possibilidades e o quanto isso é importante no processo do ensino. É como se tudo que está dentro desta esfera decodificasse o que é Certo e o que está fora, o Errado. Aliás, Errado sempre justificam como "inspirado em", "estilizado", "fusão" ou "geito cigano" que é pior ainda. Não por ser cigano, mas por delegar a etnia os erros que se comete. Imagine! Logo eles que são uma das bases de nossa arte! Coisas do tipo "jamais se taconea com os joelhos esticados". Isso é óbvio e matriz em qualquer estilo flamenco. Então qualquer coisa que saia deste parâmetro está errado. Será? E se dobrar demais o joelho, ou de menos? Sacar os pés de cima para baixo está correto? Fica no ar para refletir quem ensina.

Aí vejo a juventude nova desta fase espetacular do Flamenco mais moderno, mais atual que dança tudo, faz milhões de cursos e dança maravilhosamente e se metem a ensinar sem critérios. Vejo gente que determina a nomenclatura do que ensina criando até novos termos como "escorregada pra frente e escorregada pra trás", "mão de barbie pra dentro e pra fora"  e segue com outras coisas inexplicáveis. Devo reconhecer o potencial criativo desta juventude que melhor caberia com o uso adequado do conhecimento, quando se tem, no processo de ensino. 

Montam shows e assinam as coreografias. Poxa, nada tenho contra se utilizar das coreografias aprendidas ao longo de seu processo de aprendizado, mas ao ponto de assinar as coreografias que nuca criou? E ainda quando reconheço os estilos em algumas coreografias recortadas e montadas como uma colcha de retalhos e às vezes desestruturando a própria estrutura do baile. Já falei sobre este tema em artigo passado (http://flamencoymoda.blogspot.com.br/2017/03/coreografarou-copiografar.html)

Coreografar não é fácil. Tem medidas que variam muito em função de alguns fatores como local a ser exibido, o tema a ser explorado, tamanho e tipo da platéia, sua interpretação pessoal, seu elenco, seus músicos ou repertório mecânico, valor do espaço, mídia, etc, etc, etc.

Mariana Abreu, um talento brasilero jovem da nova geração a quem demorei a gostar, lançou esta pergunta num grupo e recebeu trocentas informações. E uma me chamou a atenção que foi da bailaora Rosa Jimenez sobre este tema. Rosa foi bem direta e deu todas as dicas para que ela pudesse viajar nas possibilidades de suas criações. Amei! Ainda tinha dicas que não tinha recebido e nem percebido...até aquele instante.

Falta isso nos artistas que ensinam para nossa continuação, nossos hedeiros, que gente como a Rosa Jimenez e outros artistas que conheço, sejam tão generosos ao mostrar uma direção. E óbvio, aos novatos que queiram receber estas dicas valiosíssimas . Existem outros artistas que não negam se os perguntar sobre isso. Gente como La China, Inma Ortega e Isaac de los Reyes.


Nós que ensinamos e coreografamos precisamos entender e lembrar disso no processo criativo. Precisamos ensinar aos neófitos coreógrafos como fazerem isso e assim demonstraremos como somos bons profissionais e respeitamos nossa arte e nossos aprendizes. Isso é um legado!

Hoje já não danço como antes embora arrisco sempre algo mais do que meu corpo responde. Mas com toda segurança que tenho hoje, tenho certeza absoluta que dou uma boa aula com tudo que se necessita aprender. Mesmo com as dificuldades atuais que o tempo me impôs, sempre que posso estou em alguma sala de aula fazendo um dos papéis que mais amo fazer... o de aluno.

Antes de ensinar, precisa-se saber aprender e depois a usar aquilo que aprendeu.

Antes de coreografar, eu sempre vejo primeiro o potencial do grupo que tenho para não dar aquilo que não podem naquele momento e lembro sempre das dificuldades que tive quando cursei com professores que não se importavam com quem aprendia. As dificuldades aprendemos a superar e treinamos durante as aulas.

Antes de tudo, valorizo aquele centavo que investiram no meu trabalho, valorizo aquele que tenta vencer suas barreiras para alcançar aquele sonho, valorizo mais ainda quem usufrui das minhas vivências para fazer uma de suas referências para seguir nova jornada. Na verdade, enquanto aprendiz o maestro sempre tem razão quando demonstra racionalmente aquilo que ensina.

E eu sou eterno aprendiz porque até meus alunos às vezes me mostram o quanto tenho conhecimento e o quanto ainda preciso aprender.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Os limites na confecção de uma Bata de Cola

Hoje se pode tudo. Qualquer tecido, qualquer tamanho e etc. Mas em artigos passados deixei dicas sobre a provável história deste figurino no Flamenco, sobre a escolha e sobre a estabilidade dela em cena. Mas existe alguns parâmetros que podem deixar seu investimento totalmente perdido por ser uma roupa cara por conta do trabalho que se tem na montagem ao se levar entre 20 a 30 dias exclusivos para isso. Dependerá do modelo e de quantos babados e detalhes tem sua bata de cola.

Quando iniciar estudos com bata de cola? Eu pergunto primeiro, será que você conhece um pouco mais os diversos palos e suas estruturas? A bata de cola é um figurino que tem sua técnica muito específica e de nada adiantará aprender seu manuseio se não conhece aquilo que se baila. Sempre sugiro que se inicie estudos de técnica com um nível médio alto por conta dos estudos e da maior segurança com os diversos palos a se trabalhar. Antes sugiro trabalhar com abanicos ou o pericon, com xales ou mesmo com o mantón de Manila e as castanholas... Mas cada lugar faz do seu processo de ensino como melhor lhe convém.

Aprendi bata de cola com Theo Dantes que foi representante da Spanish Dance Socite aqui no RJ. A bata era pesada, de brim ou de algodão e somente os movimentos básicos oriundos do trabalho que Theo me ofereceu.

Quem realmente me abriu as portas para o estudo, tanto da dança com ela como para a confecção, foi minha maestra Inmaculada Ortega que, além de bailaora e professora, confecciona seus próprios figurinos e quem me orienta quando necessito. Com ela me sinto à vontade para perguntar e acato toda orientação que me passa com muito respeito.

Y la quiero mucho por eso, Inma. Gracias por ser tan generosa, tan buena y sencilla con su conocimiento. Tu eres responsable en gran parte por mi trabajo.

Inma Ortega confecciona
os próprios figurinos

Ainda me lembro bem quando a perguntei qual era a melhor modelagem e tenho claro sua resposta como se fosse hoje: cada bata será sempre diferente da outra por conta do tecido, da quantidade de babados, do forro que se coloca ou não e da modelagem que usa mesmo que se repita. Tem que se acostumar e ensaiar sempre com a nova bata.

Sobre isso, tem detalhes em outro artigo no meu blog.

Mas é sobre a modelagem que se precisa atentar. Ao começar a confeccionar uma bata de cola, errei muitas vezes por não ter observado a modelagem e o forro da bata que Theo havia me emprestado na época. Precisei desenvolver a minha pesquisa solitariamente.

Comecei a ver vídeos na internet, muitas fotografias e a fazer alguns cursillos de bata para entender como modelar por conta dos movimentos (imprescindível este detalhe!) e algumas me deixavam ver de perto a sua bata. Devo este início de pesquisa a falecida Mabel Martín que dirigiu o grupo Los Romeros e o ballet da Casa D'España aqui no RJ. Ela realmente também foi muito importante para minha curiosidade no início da pesquisa. Mabel também confeccionava todos os figurinos deles.



Quem era a cobaia disso tudo? Eu mesmo. Muito dinheiro investido em diversos tecidos, modelagens e pesquisa no forro. Por esta razão tenho muitas batas as quais algumas vendi de segunda mão, outras que fiquei e outras que jamais repassarei por não servirem, seja pelo material usado ou pela modelagem inadequada a dança.



É nisto que se erra na compra de uma bata de cola. Até mesmo na Espanha se comete erros! Tenho contato com uma amiga que trabalha numa confecção em Sevilla e também conversamos e "trocamos figurinhas" sobre o assunto.

Quem vai ensinar o uso da bata precisa saber orientar como comprar. A modelagem inadequada ou mesmo o excesso ou a falta de tecido atrapalhará com certeza seu estudo. Nem sempre saber usar será sinal de saber ensinar e saber orientar na escolha.

Modelos mais justos inviabilizam grandes manobras, mas deixam o corpo lindíssimo. É o tipo sereia... algumas, como tenho visto, com a saia abrindo logo abaixo do joelho. O modelo abaixo é um dos que indico se quer seu corpo marcado. A saia precisa ter espaço para "funcionar". Se muito justa nas pernas só poderá jogá-la de um lado pro outro. Esta abre a partir da metade da coxa. Mas só indico para experientes. Não basta a roupa ser bonita, né? Tem que funcionar e saber usar...

modelo sereia

Um modelo intermediário, o que adotei recentemente, dá as duas coisas: o corpo desenhado e a movimentação boa. Porém necessita de um forro (os babados que vão embaixo da bata) adequado. Se usar tecido no forro, além de muito pesada o tecido se desgastará depressa!

modelo intermediário

Ainda assim, o formato e o tamanho da cola (a cauda) também tem interferência no seu desempenho. Algumas bailaoras e confecções fazem um cálculo para o tamanho que nem sempre funciona. Eu desenvolvi meu método para apropriar o tamanho da cauda. Mas dos formatos existentes sempre recomando dois que já usei e gosto muito: oval ou redondo. Ultimamente uso mais o redondo porque tem bom vôo e dá ótimo resultado nos desenhos.


Ainda tem outro modelo em que a saia se abre a partir do quadril e foi deste modelo que aprendi a usar melhor a bata. E a partir dela segui para os modelos acima. Exige mais das pernas, o que acho ótimo em todos os fatores, e dá mais segurança quando parti para os modelos acima.



De qualquer forma, a modelagem em que se "coloca" uma cauda atrás de um vestido comum sem seu respectivo ajuste no recorte, o uso de material que deixa a bata muito pesada ou mesmo quando o corpo dela (a base que leva os babados) é forrada sem necesidade, isso tudo fará que estas batas, sejam quais forem as modelagens, não sejam apropriadas para estudar ou bailar porque exigirá uma adaptação das técnicas de uma boa bata além de força maior nas por conta do peso.

Por estas razões, tem que realmente se conhecer o processo de modelagem, tecidos, montagem e forro. Não basta saber costurar...


SHOW com Música mecânica... ė Flamenco? parte II

Em 27 de dezembro de 2012 estreiei meu blog com o mesmo título deste artigo (http://flamencoymoda.blogspot.com.br/2012/12/)
para questionar o que ouvi demais: que eu não conhecia e nem fazia flamenco porque abusava das músicas gravadas. Lá neste artigo deixei claro da possibilidade.



Cabe agora explicar mais detalhadamente como isso se procede. Qualquer dança é possível coreografar sim com músicas mecânicas. Se faz necessário primeiro ter a devida bagagem cultural, técnica, didática e sensibilidade suficiente para tal. E isto somente o tempo dedicado lhe trará.



Antes de coreografar, somos alunos e alguns seguem mais tarde o caminho como professores. Ser professor é ter um mínimo suficiente para ensinar. O que acontece no vasto e disponível mercado é a proliferação de professores mal formados ou mesmo sem formação alguma (autodidatas) trabalhando com seus achismos e estilismos. Este assunto já desgastei em várias críticas em meu blog ao longo destes 5 anos de existência.

Com respeito e admiração que merecem, os músicos, diga-se cantaores e guitarristas que são a base para nosso trabalho com a dança, também são profissionais que ganham com sua arte e, assim como os professores de dança, também tem seu custo. Então muitas vezes a distância e a quantidade de alunos são fatores que vibializam ou não o uso destes maravilhosos parceiros na arte flamenca (tanto nas aulas como na construção de um show). Na inviabilização deles recaimos nas músicas mecânicas.

Mas como saber escolher a música gravada para dançar? Bom, aí entra o conhecimento de quem estuda e somou durante os anos aquilo que necessita o processo coreográfico: somatório de movimentos, sensibilidade musical (harmonia), estrutura de baile e entendimento da letra cantada além de respeitar o nível de absorção e prática do grupo a ser coreografado. E cabe mencionar que muitas vezes a própria letra acaba sugerindo, inclusive, a composição do figurino que muitos pecam na escolha das cores e dos modelos. A roupa é a casca que irá ajudar ou comprometer o entendimento do baile assim como a luz do palco. Também já desgastei este assunto quando apenas o gosto pessoal de um coreógrafo vale como modelo de figurino ou mesmo quando seu acordo com grifes pelos modelos que vendem não tem estudo algum para aquele baile... mesmo que sejam lindos e maravilhosos.



Quase todas as músicas mecânicas foram feitas para realçar e dar valor ao canto e à música e quase não se tem espaço para o baile flamenco, como conhecemos, com o uso da música mecânica. Por quê? A resposta se encontra na estrutura do baile que é de domínio (ou deveria ser) de quem coreografa, toca e canta. Existe uma parte determinada para se fazer uma ou, no mínimo, duas sequências de sapateado (escobillas) e boa parte dos palos bailáveis possuem a "subida de ritmo" e o seu respectivo "macho". E estes elementos raramente são encontrados nas músicas gravadas ou tem apenas aquele "respiro" com dois ou três compassos característico do palo em questão para continuar nas próximas letras; salvo quando se contrata músicos e se grava com eles aquilo que foi concebido para ter estes elementos. A série "Solo Compás" vendido  com variados artistas e com praticamente quase tudo que se tem para a dança é uma saída interessante, porém limitadíssima para se coreografar embora possua todos estes elementos. É uma série dedicada ao estudo e compreensão dos elementos da estrutura de baile, mas que jamais sairá do mesmo repertório musical; o que pode criar vícios. Eu os uso mas com moderação. Tem que ter muita arte, muito conhecimento e muita criatividade para lidar e coreogragar o oferecido nestes materiais.

E o que mais pega é a harmonia na hora do sapateado. Não basta colocar seu sapateado certinho no compasso. Este é um limitador na hora da criação se quem o faz desconhece a conjunção do "compasso", dos "sapateados" e das possibilidades harmônicas entre estes dois elementos e a música gravada. E ensinar esta harmonia ao aprendiz é muito difícil porém um exercício a sensibilidade.

Quando se trabalha com música ao vivo, a sensibilidade aliada ao conhecimento do guitarrista, ele criará harmonicamente uma melodia para seu trecho de sapateado para dar a ele a devida importância que tem no baile. É um dos momentos mágicos na dança!

Aliás, cabe mencionar que o processo coreográfico com a música ao vivo (entenda-se o guitarrista e o cantaor) é um processo coletivo e os três trabalham juntos, em parceria. Não é unidirecional comandado pelo coreógrafo. Por esta razão é que quem dança, toca e canta CONHECEM a estrutura dos bailes e podem conversar, discutir e chegarem a um resultado muito eficaz para dar o "tom" completo a coreografia toda.

Então coreografar com música gravada exige estes elementos dominados para que, ao escutar aquela música mecânica, se possa decodificar e identificar a regularidade do compasso para dançar, as letras com seus cortes, remates, falsetas quando existentes, espaço para se taconear de forma expressiva (ou não) e o mais difícil ainda que é a subida de ritmo e seu respectivo "macho" quando existente.



E quando faltam algumas destas partes? Como se faz? Aí entra o conhecimento disso tudo mais a arte de interpretar exatamente aquilo que a música mecânica quer mostrar. E isso não tem receita. É pura experiência do tempo como aluno (sou eterno aprendiz) aliado ao bom senso à sensibilidade e o nível do grupo coreografado para se ter o resultado esperado. Coreografar para si mesmo nunca será o mesmo que coreografar para os outros, mesmo que leve sua assinatura. E a coreografia tem que ter dinâmica para não ficar monótona.

Então dá sim para fazer um trabalho flamenco. Mas lembre-se que jamais terá o mesmo teor que a música ao vivo, porém respeitando os ditames do processo coreográfico será sim um trabalho autêntico e um verdadeiro laboratório que explorará seus conhecimentos para não cair no ridículo e nem na estilização ainda esteriotipada que só engana a quem não tem a mínima noção do que seja mesmo o flamenco.



Imagine então associada aos mordenismos(eu gosto moderadamente) que se tem hoje. Só quem conhece, identifica.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

As Transformações que se deseja...

Constantemente escuto de amigos, vejo em midias sociais ou mesmo escuto em algum lugar em que estou as pessoas reclamarem de que "a vida é ruim, as pessoas não prestam" e outras do mesmo gênero qualificando o momento atual como inaproveitável, desgastante e negativo.

Uma vez me falaram tanto do famoso "perdão" e algumas destas eram as mesmas que reclamam da vida, seja a sua ou a atual cotidiana.

Lanço a pergunta: como se faz para conviver nesse momento? Como se muda isso? Pensando, existem muitas saídas entre "as ruins" e "as melhores" e dependerá da opção que fizer.

Eu prefiro usar a segunda opção e dentro delas a que me favorece, óbvio.

Primeiro mudei minha forma de pensar e agir melhorando alguns hábitos e corrigindo outros para dar sequência a segunda parte.

Seguindo, cortei pela raíz tudo o que me traz insatisfação...pessoas ruins que mentem, são desonestas e vivem da degradação do outro, gente as quais não tenho nenhum relacionamento ou que cometem erros demasiados e conscientes, pessoas chatas ou com pensamentos muito negativos e com algumas criei círculo de tolerância e coexistência. Das boas não precisei fazer absolutamente nada porque já estou no lucro com elas.

Dos ambientes cortei os ruins, que nada acrescentam ou apenas aborrecem ou mesmo só vampirizam minhas energias, que só tem gente descrita acima, os que no momento não posso mais frequentar. Deixei apenas os que vou esporadicamente e que, mesmo sozinho, me sinto muito bem.

Limitei-me com o ditado "não tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho" e fiz dele uma fonte de inúmeros e singulares momentos de felicidade. O maior de todos  eles é minha casa, a que estou seja lá onde for ou em que estado se encontra. Este é meu castelo, meu recanto e minha "casinha de sapê".

Para a terceira parte deixei a mais valiosa de todas as lições. A Resiliência do cotidiano. E esta tem me servido para contribuir em todas as partes acima.

De mais, o polimento daquilo que acredito ser necessário nos defeitos que tenho e enxergo e a valorização comedida do meu lado positivo.

E pra finalizar, deixei um filtro na parte mais sensível que tenho: a sintonia do meu pensamento.

Com isso consigo escolher melhor e errar menos (ou quase nada) com as opções que o mundo atual impõe para se viver. Simples assim.

Ah, se não tem opções nada de "o menos pior". Melhor ficar sem e seguir adiante até que alguma boa opção surja, pois saber dizer "não" a estas armadilhas também é uma boa escolha.

Tente! Pratique! E conseguirá ver que as transformações começam com você e se espalha. Não deixe que este "baixo astral" da atualidade te contamine.

E para finalizar, desejo a você aquilo que desejo para mim mesmo: BOA SORTE!


sábado, 10 de junho de 2017

Lynda Carter antes e depois de Mulher Maravilha

Fui e ainda sou aquele fã fervoroso da Mulher Maravilha protagonizada por Lynda Carter no seriado da tv nos anos 70. Muitos anos após vejo a nova versão cinematográfica com Gal Gadot e o quanto sua vida vem se transformando por causa da Mulher Maravilha. E isso me fez olhar novamente para Lynda Carter e sua trajetória...


Revi todo o seriado, algumas entrevistas, os shows daquela época pós seriado e o histórico dela através do programa E-true Hollywood Story. Nos musicais deu pra entender porque ela foi chamada para fazer a biografia de Rita Hayworth, outra atriz que adoro. Nos musicais tinha muito de Rita nela...

 


Lynda nasceu no Arizona em 1951, tem dois irmãos e viu seus pais se separarem. Como qualquer ser humano, na adolescência se viu mais bonita que o normal para sua idade  e começou a almejar fama e sucesso. Descobriu a música e depois os concursos de beleza chegando a ser Miss Mundo EUA em 1972.

Como a maioria das futuras estrelas daquela época, teve muitos "não" até ser chamada para o teste da Wonder Woman. Não levou muita fé porque tinha concorrentes já famosas ao nível de Farah Fawcet, Jacklin Smith e tantas outras. Para surpresa dela, conseguiu o papel. Seu biotipo coincidia com as descrições feitas pelo criador de Wonder Woman, William Moulton  Marston. Ela era a própria Wonder Woman personificada com o traje.



Uma vida cheia de altos e baixos e quase perdeu tudo se não reequilibrasse o ego. Fez novos filmes e partipou de outros seriados, mas nada com tanto sucesso como a sua Mulher Maravilha.

Desistiu de grandes produções, voltou a cantar e fez apenas filmes de filantropia facilmente encontrado no mercado e seguiu com seus musicais...



Na atualidade além dos shows pelos EUA, Lynda faz algumas pontas e a mais recente é ser a presidente dos EUA na segunda temporada de Supergirl.


Com tantas tentativas de renascerem a Mulher Maravilha, Lynda passou estes quarenta anos sendo querida por todos. Se não fosse readequar sua vida pessoal com o segundo casamento e dois filhos e mais o perfil do que é a princesa amazônica Diana, filha de Hypolita e rainha das amazonas, talvez ela nunca chegasse ao transbordamento de tanto carinho e reconhecimento de seus fãs até hoje e da atual equipe de Wonder Woman vivida pela atriz israelense Gal Gadot que muito tem em comum com Lynda na vida pessoal. Até miss Gal foi!

Falo com propriedade sobre o lado de fã que sou, pois mesmo com meu irrisório inglês, Lynda nunca deixou de me responder todas as vezes que a escrevi. E sim, podia ser uma carta genérica como todas, mas quando se pergunta algo tão pessoal, o tom da carta muda e vira quase íntimo...com assinatura real!

Optei por manter a distância e continuar a viver o sonho de fã da atriz e da Mulher Maravilha.

E é bom ver que ela está aceitando bem o tempo e as novidades que a cercam.

É bom ver que Lynda aprovou e deu ótimos conselhos a sua sucessora. Faltava mesmo era uma pontinha de Lynda no novo filme. Quem sabe no segundo filme?

Mesmo passando o tempo, Lynda continua linda...em tudo!


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Existência Despida



Não sei morder devagar se não for pra marcar
Não sei dar beijo técnico e nem sorrir quando não gosto
Sou como um vento que vai passar de acordo com a necessidade...
Fraco
Médio
Forte
Ou como um Furacão
Não sei andar no sol sem ver minha sombra e nem nela confio
De noite sou como uma luz na escuridão, mas poucos me enxergarão
Sou como bambuzal que assovia com o passar do vento, que enverga com a força do furacão e encosta a ponta na terra, mas só se rompe quando minha existência não tem mais necessidade
De dia brilho tão forte quanto o sol
E de noite disputo lugar com a lua
Não adianta, pode ter nuvens mas sempre estarei lá...
Quer queiram ou não, eu existo.
Este sou eu.
Então me ame ou me odeie
Eu sou assim.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Pesquisas da escritora Cristina da Costa Pereira

O universo religioso dos ciganos tem se resumido aqui no Brasil ao culto de Santa Sara. E como sou fã e seguidor desta escritora por sua idoneidade, transcrevo na íntegra um artigo publicado no jornal Prana, 219 edição, em maio de 2015 e que leva o título de "Caminhando com os ciganos". O texto é longo e não o ilustrarei e nem o repartirei. Depois cada um escolhe o que pensar e o que seguir...

Para conhecerem mais os trabalhos desta magnífica escritora a quem tanto admiro, deixo-vos o link de seu blog abaixo:

www.cristinadacostapereira.blogspot.com


"A publicação de livros sobre ciganos é um tesouro para nós, porque os escritos vêm documentar, noticiar, esclarecer, elucidar. Também encantar. No presente, agradecemos aos livros de Cristina da Costa Pereira, desde 1986, que juntamente com a criação do Centro de Estudos Ciganos do Brasil (RJ 1987), fizeram com que não figurássemos tão somente nas páginaspoliciais, ao nos colocarem, principalmente, nos cadernos culturais dos jornais do país. (Oswaldo Macedo, in PEREIRA, Cristina da Costa. Histórias de flamenco e outras cenas ciganas. Rio de Janeiro, Tinta Negra, 2014).

No Brasil, segundo dados da Unesco, há mais de 500.000 ciganos, e a maioria dos brasileiros desconhece tal etnia, ou a conhece, somente, por meio de estereótipos. O importante, então, é dar voz a esta minoria excluída e não apenas apontá-los, dizendo: “Aqueles são os ciganos; assim são eles”, mas contextualizá-los dentro das complexas relações sociais de dominação que os vêm afetando, ao longo da sua trajetória milenar em diversas partes do mundo: diáspora na Índia, Inquisição, escravidão na Romênia, degredo de Portugal/chegada ao Brasil, perseguições por meio de leis, alvarás e éditos do século 15 ao século 19, guerra civil espanhola, Segunda Guerra Mundial (nos campos de concentração nazistas foram exterminados cerca de meio milhão de ciganos), sua condição no século 21, de extrema marginalização, sobretudo no Leste Europeu, e de vítimas de xenofobia em vários países da Europa. Além disso, a atitude muito comum, por parte dos não ciganos, de tachar os ciganos como um povo místico e detentor de tradições ocultas, ou seja, considerar o sobrenatural, é mais cômoda. Tocar na realidade é o que dói.
Ciganos são uma etnia e não têm religião própria, mas adaptam-se às ideias religiosas, fundindo-as com crenças comuns a muitos povos. Em relação ao Brasil, nos 30 anos de convívio com este povo, conheci ciganos católicos, espíritas, umbandistas e evangélicos. Devel(Deus) é a maior referência em sua religiosidade, bem como Jesus Cristo. Logo, à diferença dos judeus, que são uma etnia e têm uma religião própria – e qualquer pessoa pode se converter à religião judaica –, no que concerne aos ciganos, isso é impossível de acontecer.
Pela proximidade do dia 24 de maio – dia de Santa Sara, também comemorado em Camargue (sul da França) a 25 de maio – e, por isso, por decreto presidencial, desde 2006, instituído como Dia Nacional do Cigano, no Brasil, falarei agora sobre Santa Sara. Mas ressalto que o espaço é exíguo para tratar de assunto tão polêmico, e que gera inúmeras controvérsias entre os estudiosos e, sobretudo, entre os ciganos. Resumidamente, então, darei algumas informações a seguir.
A referência a Santa Sara, nos livros de hagiografia do mundo ocidental, remete ao século 13, e há narrativas diversas, e até discrepantes, sobre a origem do culto à Santa Sara pelos ciganos.

Sara é reconhecida como a padroeira dos ciganos somente entre um grupo de ciganos, os gitans, e não é reconhecida pelos outros grupos (rom, manouche e sinti). A peregrinação existente em Saintes-Maries-de-la Mer (Camargue) [desde 1936, para alguns, e para outros, depois da Segunda Guerra Mundial] não é frequentada por todos os grupos citados, que não manifestam veneração a ela como o fazem os gitans (...). No 1º Congresso Internacional do Povo Rom, que ocorreu em 1971 (Londres), um grande pôster foi amplamente divulgado mostrando a procissão com Santa Sara, em Camargue, e uma legenda explicativa: “A estátua de Sara está sendo carregada sobre os ombros dos ciganos. Santa Sara, a grande protetora dos ciganos, representa a forma cristianizada da deusa hindu Kali, deusa do Destino e da Fortuna,  que tem sido cultuada pelos ciganos, depois de os primeiros deles terem deixado sua pátria de origem, no norte da Índia, no ano1000.” Para marcar o fim das festividades do Congresso, a estátua de Santa Sara é conduzida numa grande procissão ao fim da qual foi submergida num tanque de água, à semelhança das festas de outubro de Durga, da Índia. Sara Kali pode evocar, neste sentido, a deusa indiana Kali Durga, ainda que a hierarquia católica romana tente preservar a peregrinação de Saintes-Maries-de la Mer na comunhão oficial da cristandade. (in BLANCHET, Régis. Un peuple – mémoire les Roms, Ed. du Prieuré, s.d.).  

Há ciganos, bastante conhecedores de sua tradição, que afirmam que a única realidade, neste sentido, é Sinti Sara, crença originada na Índia e que propiciou o sincretismo. Já o escritor cigano Franz de Ville, em seu livro Tziganes, Bruxelas, 1956, afirma:

Sara, a Kali, era cigana e foi um dos primeiros membros do nosso povo a receber a Revelação. Ela liderava sua tribo, que vivia nas cercanias do Rhône [rio Ródano] e conhecia inúmeros segredos transmitidos pelos antepassados. Um dia, Sara teve uma visão que a informa de que as mulheres presentes à morte de Jesus iriam chegar e que ela deveria ajudá-las. E Sara as vê chegar em sua embarcação. O mar estava agitado e o barco ameaçava naufragar. Maria Salomé joga seu manto sobre as ondas e Sara, utilizando-o como uma jangada, vai até Maria Jacobé e Maria Salomé e as ajuda a chegar à terra firme por meio de uma oração. 

Esta antiga narrativa, com inúmeras variantes e o adendo de que “Sara era a companheira egípcia das Três Marias (Maria, mãe de S. Tiago o Menor, Maria de Salomé, mãe de S. João Evangelista e S. Tiago o Maior, e Maria Madalena, acompanhadas de José de Arimateia e Lázaro), é reproduzida por D. Estevão Bettencourt O.S.B, no artigo “Os Ciganos e a Religião” em Ciganos – antologia de ensaios, org. Ático Vilas-Boas da Mota, Brasília, Thesaurus, 2004. D Estevão acrescenta:

Em comemoração do episódio (cuja autenticidade não interessa discutir aqui), os cristãos ergueram, na mencionada ilha (Camargue), uma grandiosa igreja onde estão guardadas as relíquias de Santa Sara, que os ciganos cristãos veneram como sua padroeira, e para lá acorrem a 25 de maio, de várias partes do mundo (França, Alemanha, Áustria, Itália, Espanha, e até do Marrocos), podendo o número de peregrinos chegar a um total de 5.000.

Muitos estudiosos do tema, de várias partes do mundo, dizem que “Sara não é cigana, mas os ciganos a fizeram sua.” E outros acrescentam: “Os ciganos, em verdade, vivenciam o acontecimento como uma auspiciosa fonte de negócios, de intenso comércio.”
O fato é que, hoje, no Brasil, em centros de umbanda e em inúmeros grupos esotéricos, Sara é cultuada como a Santa dos Ciganos. No entanto, grande parte dos ciganos brasileiros não reconhece Sara como sua padroeira e, sim, N. S. Aparecida. No Nordeste do Brasil, Padre Cícero é bastante festejado pelos ciganos. E N. S. Santana, a Velha (como a chamam muitos ciganos), também é bastante homenageada, no Brasil, a partir da época colonial: “N. S. da Glória/Tem grande merecimento/Mas a Senhora Sant’Ana/Trago mais no  pensamento” (quadra de louvação presente nos bródios dos ciganos calons sedentários do Rio de Janeiro, registrada por Melo Morais Filho, na sua obra precursora, Cancioneiro dos ciganos – poesia popular dos ciganos da Cidade Nova. RJ, Ed. Garnier, 1885).
Concluindo, transcrevo as palavras, de 23 de abril de 2015, que me foram ditas, exclusivamente para este artigo, pelo mais renomado ciganólogo do Brasil, Ático Vilas-Boas da Mota:

Sara é uma santa, como tantos outros santos do panteão cristão, que pertence ao ciclo das navegações, e como a documentação referente a isso é escassa, aceita-se tanto a tradição ligada ao ciclo marítimo como a que pressupõe uma origem muito mais antiga, que a torna mais próxima da Índia. Embora haja também a possibilidade de um sincretismo mediante o uso da personagem bíblica semítica Sara.

Cristina da Costa Pereira, escritora e professora de literatura, com 13 livros publicados, sendo 7 referentes à etnia cigana. "