quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Emprestando um grito...

Enquanto muitos se travestem e fingem ser ciganos país afora e uns tantos que o são de verdade e se aproveitam desta ocasião como oportunistas, em várias partes do mundo esta etnia ainda é perseguida mesmo que não sejam nenhum tipo de ameaça a não ser por serem literalmente livres. Ocorre aqui também bem perto...

Recebo de uma amiga romi (cigana) de Volta Redonda, RJ, o seguinte artigo no jornal A Voz da Cidade datado de 02/12/2017... (vale lembrar que aquela região incluindo Barra Mansa e Resende é rota migratória de ciganos)


O fato é a ignorância tanto da cultura como as vistas cegas para o que acontece ali. As calins (ciganas descendentes dos ciganos portugueses que aqui estão praticamente desde a transferência da coroa para cá) não mendigavam e nem exploravam seus filhos conforme denúncia feita, pois trabalhavam vendendo panos de prato!

Segundo bom senso, isto não indica nenhum ato exploratório de seus filhos e sequer fere o Estatuto do Menor conforme relata o representante do Ministério Público local.

Pergunta fica no ar: por qual razão vemos em todas as cidades crianças gadjes (não ciganas) trabalhando nas ruas vendendo balas nos sinais (e às vezes até com seus pais por perto) e nunca vemos as mesmas medidas tomadas sobre suas tutelas?

O desconhecimento da cultura cigana, da lei que o permite exercer sua etnia em território nacional e o descaso mascarado contra a etnia naquela região faz a gente pensar como deveríamos agir para ajudar.

Seriam eles diferentes de outros por serem de outra etnia?

Em meio a momentos de puro preconceito sob os olhos da intolerância atual em diversos segmentos, deveríamos rever os conceitos que carregamos...ou a falta deles.

Ainda menciono quantas vezes ouvi de pessoas estudiosas e ligadas a este povo que sua história sequer passa em nosso registro histórico se lembrarmos de que eles participaram da construção de nossa história e estão aqui desde o século XVI.

Por esta e tantas outras razões tenho minhas diferenças com pessoas que brincam de serem ciganas, que usufruem ainda que mal e porcamente da cultura para terem seu "ganha pão" artístico ou místico, de alguns poucos mal caráter infelizmente presentes dentro da etnia e que sequer movem uma palha para ajudar seu semelhante. Quando muito, com algum cargo de alguma ONG se postando como representante desta minoria étnica e ainda conseguindo algum dinheiro para si diante dos maiorais em Brasília, mas não para aplicar na causa dos ciganos nômades e semi nômades espalhados pelo país os quais supostamente dizem representar.

Aqui apenas empresto meu espaço no blog para dar, ainda que apenas escrito por mim mesmo e em prol dos amigos ciganos, um grito sobre o assunto e pedir  que tenham um olhar mais seguro sobre a etnia antes de tomarem qualquer atitude insana. Concordarei se houverem ciganos que sejam infratores das leis de nosso país e que devem ser julgados como qualquer cidadão pelas leis comuns a todos.

Não há nada melhor que os devidos Ministérios e Secretarias sociais, além da própria população local, se atenham da lei que os libera exercerem sua etnia em nosso país e verem se as referidas denúncias não são alvo de puro preconceito, o que é crime previsto em lei.

Pronto, gritei!
Desta vez com uma situação recente, pois de tantas outras já falei aqui e com baixíssimos resultados positivos.

Espero com este grito fazer com que aqueles que lêem meus artigos aqui, que (re)pensem sobre nossa pluralidade étnica e as respeitem como são.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Desabafo profissional...

Escolhi uma profissão bonita, romântica e difícil. Sonhei difícil nas escolhas que tive na vida e escolhi das que gostava a mais difícil, a dança. Ainda escolhi uma das mais difíceis: o Flamenco.
Sonhei apenas em dançar e acabei em choque com o processo do aprendizado e do ensino pela competência do mercado.
Por causa disso fui aprender a ser professor para ajudar a ser mais correto e não passarem o que passei. E nunca me coloquei como absoluto nisso!
Me deparei com gente graúda que me induziu a ser desonesto ou a desrespeitar meu estilo de dança achando que eu não perceberia.
Mas aqueles bons que encontrei deixei menção em vários artigos aqui em meu blog com lugares especiais pra mim. E segui seus exemplos!
Saí do bairro nobre e fui para o subúrbio e nada adiantou.
A ignorância prefere mesmo continuar ignorante por ser cómodo!
Escolhi errado ao ser apenas um subalterno por achar que seria menos complicado que ter meu espaço.
Critiquei alguns colegas que hoje reconheço serem corajosos por abrirem seus espaços e enfrentarem as adversidades da direção e da gestão de seu próprio negócio.
Sim, eu que dei murro em ponta de facas! Reconheço...
Se me arrependo? Sim... mas demorei pra enxergar isso.
Alguém se importou?
Algum amigo orientou?
Me estenderam a mão?
Aliás, existe amigo profissional honesto e sincero?
Não, pelo menos não apareceram pra mim.
Apenas alguns lastimaram e se afastaram porque não toleraram escutar o que eu tinha pra dizer mesmo que os escutasse... nem mesmo pra me falar algo positivo ou negativo! Apenas alguns lastimaram, quase sempre, somente com um olhar triste.
Desisti? NÃO!
Meu problema não é com a dança, mas no relacionamento profissional.
Sim, estou realizado porque dancei em palcos, fiz shows de grupo, participei como solista e dei aulas em muitos lugares.
Prêmios? Ganhei alguns, mas este nunca foi meu objetivo é agradeço os que apareceram.
Divergência no aprendizado é normal e respeito a capacidade de cada um.
Me disseram que sou metido e digo que sou orgulhoso.
Me chamaram de dono das verdades e digo que sou sincero e honesto.
Me disseram que eu sou invejoso e digo que nunca quis o lugar de ninguém. Apenas acho que se beneficiar enganando os outros não é justo. E falo isso! Mas não digo quem e nem o local... O tempo sempre mostra o caráter de cada um para quem quer enxergar.
Me disseram que me acho o melhor e nunca afirmei isso pois sei bem quem sou e o que tenho a oferecer. Nunca fui o melhor bailarino mas minha aula nunca deixou a desejar... se não sabem o significado de orgulho, sinceridade e honestidade não será problema meu embora quem sofra com isso sou eu mesmo.
Procuro perfeição? NÃO! Mas estar perto dela e de gente que busca o mesmo e é aí que a coisa complica...
O mercado há anos massacra aquele que é modesto e honesto e conheci muitos colegas que desistiram por não suportarem a pressão.
Errei de novo ao acreditar que lutar e ficar aqui dando murro em ponta de facas eu conseguiria sozinho abrir um canal, um espaço ou uma brecha pra seguir... "uma andorinha não faz um verão" já diz o ditado.
Perdi tempo? Não sei dizer afirmando com precisão, pois posso ter deixado um alerta por onde passei e quizá algum dia se lembrem disso.
O que aconteceu?
Não existe amigo profissional. Existe o colega que tem o mesmo interesse... e este eu não encontrei, infelizmente.
Com isso digo que os outros estão errados? Não os que fizeram suas escolhas de seguir e por caminhos semelhantes em seus espaços. Reconheço eles... os outros praticantes de mentiras insólitas de minha profissão ficam apenas na lembrança da experiência que convivi e ver com cada um que certamente não era aquilo que eu queria pra mim.
Fazer dinheiro sei sim, mas só não faço de forma desonesta que é o que impera no mercado de minha região. Virei nômade por isso e o ciclo de mudanças de local acontece com frequência, pois fico aqui e ali até não dar pra ficar pela incompatibilidade mesmo.
Uma coisa é estabelecer normas, chegar a acordos e eu sempre ceder mas nunca receber a recíproca quando cobro minha parte e falo do respeito e não do dinheiro. E ainda sou tachado de intolerante e não saber me relacionar nos espaços. É isso que fico sabendo quando saio deles. Será que eu sou o errado sempre? Todas as vezes que saí de um lugar pensei nisso. Será eu?
Trabalho é troca justa pra mim. Forneço conhecimento e ganho dinheiro. Mas quase ninguém quer e saem das salas atrás de imediatismo quando o próprio espaço não se desmascara com o tempo e não valoriza isso ... e o errado sou eu.
Cansei... Não tem como! Os diretores sempre estarão certos! Pra mim apenas são egoístas e inflexíveis.
Não sou perfeito, mas não costumo persistir quando erro e detesto que me induzam aos erros alheios ou ser conivente com eles!
Comecei sozinho na dança e acabarei sozinho.
Seguirei até onde o corpo deixar e enquanto existir um lugarzinho pra dançar ou dar aulas.
Terminarei feliz com minha arte que escolhi porque não enganei ninguém, não inventei mentiras, não escondi conhecimentos e não prejudiquei ninguém por estudar, investigar, refletir e somar conhecimentos idôneos, não me sobrepus a ninguém alegando ser melhor que eles, não esperei reconhecimentos pois sei o que é a essência da arte Flamenca e a ela sou grato por me ensinar a destilar a própria vida.
Não fiquei rico e não ganhei bens materiais que não fosse o próprio conhecimento desta arte.
Nunca quis ser famoso, estar em voga na mídia ou na moda porque não me preenche em nada.
Não me vitimizo porque não é de minha índole e fui apenas vítima do próprio sistema que se alimenta disso. Eu não...
Não associei outras fontes de conhecimentos como a religião e a junção inapropriada de outros estilos de dança que não domino pra me prevalescer no mercado.
Apenas descobri amargamente que não se sobrevive honesta e sinceramente no mercado de trabalho nos dias de hoje porque em algum lugar o sistema pede para que se corrompa em alguma coisa para prosseguir... e esta é uma atitude que não carregarei pro túmulo e muito menos no espírito.
Muita destas pessoas errôneas que fizeram meus cursos usam meu nome de forma inapropriada (apenas porque fizeram algum curso) para afirmarrm seus erros de conduta e isso também já deixei claro em outros artigos aqui no blog.
Como qualquer um, aprendi a dominar meu ego e controlar minha vaidade. Se isso não é ser humilde, então ainda não me ensinaram como ser e nem descobri.
Cansei de lidar com as pessoas que se indisponibilizam para seguir reto e sem algum tipo de trapaça.
E aí morro como qualquer atista...
...solitário, taciturno mas feliz por ter sido fiel a arte que escolhi.
Muito obrigado, Flamenco, por me ensinar a entender, respeitar e aceitar as diversidades da vida e nunca me entregar para a derrota.
Ah, Flamenco, você me ensinou a me reconhecer como indivíduo no universo, me ensinou a sentir ao máximo as diversas emoções...
Obrigado por me permitir adentrar sua existência, me deixar dizer que também fui um artista flamenco e que de alguma forma contribuí pra sua existência.
Sei bem o que é uma Soleá... uma saudade de algo que nunca tive.
Gracias!

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Escolhendo meu professor de dança...

Não basta apenas possuir um registro, o famoso DRT, se seu passado está na lista do hiato curricular. O quê quero dizer com isso?


Digo que, mesmo que se apresente um currículo, há que se reparar nas entrelinhas. Não basta apenas ver quantas danças fez, em quantas apresentações de academia esteve, quantos grupos e quantos eventos coletivos participou como solista ou como membro de algum grupo amador.

Precisa ver o registro histórico de seu aprendizado como com quem iniciou, curso seguintes, cursos de aperfeiçoamento e formação (se existir). Lembro que todos estes dados precisam ter referências reais e comprovantes como certificados e/ou diplomas de gente e de estabelecimentos reconhecidamente aptos para isso e que confirme aquilo que apresentam como prova cabal do seu currículo quando investigado. Currículo à base apenas de workshops nunca formaram ninguém e está cheio de "profissionais" com currículo só de workshops!


Poderá perceber em workshops que contenham apostilas se a referida pessoa demonstra a bibliografia de sua "pesquisa" e se o texto apresentado foi apenas copiado do original ou se ela o redigiu dando autenticidade naquilo que apresenta como conteúdo reflexivo e fruto de uma verdadeira pesquisa de quem realmente estuda e não cria "achismos" ou se baseia em outras pessoas que fazem o mesmo que ela. Ou se o texto destas apostilas nada mais são do que o famoso "control+v" e "control+c", ou seja, copiou da fonte e colou ali.

Lembro que roupas belas e ótimos atuantes em palco nem sempre são bons professores na sala de aula; o que não quer dizer que eles não existam! Conheço ótimos artistas de cena e que são professores maravilhosos!

 Ainda existem muitos que não passam o conhecimento ou inventam sobre aquilo que ensinam. E pode piorar quando se associa aquilo que ensina à religião. Sobre isso já escrevi no artigo " Místicas na dança" aqui em meu blog (http://flamencoymoda.blogspot.com.br/2015/06/misticas-nas-dancas.html). Não é de bom tom e tão pouco confiável os cursos dados em templos religiosos sejam eles quais forem para a formaçãode um bailarino ou dançarino. Estes cursos dados em templos só atendem às necessidades de danças de sua fé e não do mervado dos teatros. Para isso existem escolas e academias de dança. Atente-se a isso! E não existe curso de dança com base em religiosidade alguma que dê crédito as informações passadas por quem ensina!

Ainda assim, ao principiante se torna muito difícil fazer uma escolha de um bom profissional. Precisa ver os shows de outros grupos para ver se os mesmos profissionais não estão repetindo as mesmas danças sempre (o que não é errado e nem por isso o indica como mal profissional) e ver se o famoso "duende" aparece. Sempre digo que a dança tem um poder de tocar na alma quando o artista é genuíno em suas emoções em cena. Tem que dar um arrepio! Em especial isto acontece demais no Flamenco sem importar o quão na moda e na mídia está aquele artista.


Cuidado para não se deslumbrar com o que chamamos de "retrato"... belas roupas, bela música e beleza plástica do que se vê. Isso pode ser apenas a necessidade do comércio e uma maneira de disfarçar a falta de conhecimentos daquele(s) artista(s). Não é uma regra, mas acontece com frequência em artistas que apenas estilizam seu trabalho; o que reconheço como um grande potencial criativo desperdiçado com a falta de conhecimento próprio da dança que exibe e se diz profissional. O mercado está cheio de artistas estilizados.

Com isso quero dizer que não existem regras fixas que se tenha como base para escolher um profissional adequado ao seu processo de aprendizado, mas estas dicas ajudam bastante na escolha. Não se prenda ao comodismo da academia mais perto da sua casa. Isso pode ser uma armadilha! Mas pode ser que tenha sorte, caso seja próximo de você e o profissional realmente tenha estas qualidades.

 Não tenha pressa em aprender logo, pois isso não ajuda e com certrza não trará qualidade ao seu trabalho. Basta apenas querer aprender e crescerá no processo conforme sua entrega no aprendizado, na sua capacidade de absorção e prática destes conhecimentos e de um profissional que lhe estimule, lhe corrija sempre, lhe responda sobre tudo sobre a arte que cursa, lhe apresente outras fontes distintas da sua e que lhe mostre as opções de chegar no mesmo lugar: conhecimento e domínio sobre aquilo que cursa.

Cuidado com o estabelecimento que oferece cursos! Veja se dispõem dos currículos dos professores ali presentes, se as instalações são próprias para dança e outros detalhes domo salas privadas e bem arejadas, vestiários e banheiros limpos.

O mercado da dança é competitivo, mexe diretamente com o ego e vaidade do artista e do aprendiz e traz a disputa pelo aluno entre a grande maioria dos profissionais existentes. Ego e Vaidade fazem parte do artista sim! Mas precisa dominar e não exceder...

Mas aquele que é seguro, honesto e transparente com seus aprendizes não está neste meio mesquinho, aliás digo de imediato que isso acontece em todos os setores do comércio, e o bom profissional não carrega uma "placa" indicativa de seu caráter. Aliás, ninguém, não é mesmo?

Nenhum de nós profissionais dedicados e honestos somos absolutos em nosso trabalho. Temos o tempo a nosso favor no acúmulo destes conhecimentos e no processo humilde da dança onde até um professor está sempre fazendo cursos, se reciclando e dominando novas técnicas para favorecer seus aprendizes.

Apesar da palavra final ser sempre do professor, costumo dizer que aprender dança é um grupo do qual a experiência comprovada do mais velho ensina ao mais novo e se troca conhecimentos. Aprendizes despertam também a nossa curiosidade e nossa sede de aprender mais.

Antes de ser professor em dança, este profissional precisa ser e enteder que ele mesmo será um eterno aluno, um eterno aprendiz. Sem esta humildade para lidar com a sapiência não será honesto em seu ensino com os outros.

Os anos ensinam, demonstram e mostram o caráter bom ou ruim destes profissionais e são as investidas e pesquisas de seus alunos em distintas fontes que confirmam o conhecimento e o caráter daquele que lhe ensina.

Mais uma vez digo que não sou senhor das verdades absolutas. São os anos de pesquisas em diversas fontes que disponho aos meus aprendizes e a convivência no mercado que me fez escolher por onde trilhar. Ser honesto, humilde e sincero são qualidades difíceis de se encontrar em qualquer profissão. Basta usar seu dom da Reflexão e do Questionamento aliado as suas pesquisas individuais e conseguirá a separar o joio do trigo.

Desejo sempre que todo aprendiz consiga dominar tudo que domino e que consiga ser até mesmo melhor do que eu, mas que seja íntegro em seu caráter com os atributos da honestidade, da humildade, da sinceridade e do orgulho suficiente para se defender quando necessário.

Então, boa sorte a todos que querem este caminho!


sábado, 28 de outubro de 2017

Mabel Martin, dura como uma rocha e amável como uma rosa

Quando adentrei a sala da academia (não lembro o nome mais) na rua Bambina, em Botafogo nos idos anos 80, tinha certeza que era aquilo que eu queria.

Me arrepiava ouvir os sapateados daquela mulher e de seu grupo ensaiando para mais um show. Mabel Martin era uma mulher muito exigente com a dança, com seus alunos e nos tratos profissionais. Sempre foi tida por muitos como carrancuda e grossa, mas hoje a vejo como uma mulher explosivamente latina, "muy flamenca" e com as emoções à flor da pele...como pede o Flamenco e muito sincera em tudo que pensava.


Adentrei seu curso e vi como ela tinha carinho com as aulas, tinha método, tinha disciplina. Ali comecei meu derradeiro destino com a dança. Pesava meus 54 quilos em 1,76m e sem nenhum aprendizado prévio de dança.


Nunca fui tratado com as grosserias que diziam que ela fazia. Nunca fui chamado a atenção salvo os erros dos exercícios e sempre recebi as devidas orientações com carinho.


Ainda me lembro bem das aulas de castanholas dela. Eu tinha a minha "caixotinho de feira" que ela muito docemente me dizia: "filho, esta não serve para a dança porque é para enfeitar. Te ensinarei a escolher uma castanhola decente para estudar". Dito e feito. Juntei meu dinheiro e comprei uma Lucero Tena, muito em moda e considerada uma das melhores na época.

"Lagarteranos"

Chegada ao Brasil
em 1963
Ela e o marido, Alberto Turina, ambos argentinos com antecedentes asturiano e madrilenho respectivamente, trouxeram a escola de danças espanholas completa em todos os seus estilos e com eles o esclarecimento sobre estes estilos o que, infelizmente ainda, muitos cometem erros ao se qualificarem como professores destas danças. Por isso às vezes ela era dura nas críticas quando via o trabalho de outros profissionais do mesmo setor.

Alberto Turina, Pepe de
Córdoba,
Mabel Martin e
Carmen de Ronda, SP
Los Romeros
Primeira Formação
Adentrar os grupo Los Romeros era difícil porque não era só flamenco. Mabel  exigia que se estudasse todas as escolas. Porém aproveitava cada um em seus melhores estilos na hora de montar coreografias para o grupo.

Ainda me lembro bem de alguns artistas em sua primeira formação como Victoria Núñez, Getúlio
2a Formação do
Los Romeros
no RJ
Sardinha (mais conhecido como Tulio Cortez), Arnaldo Triana, Teresa Seiblitz (a atriz), Lucia Caruso, Marisa Vasquez e Niffer Cortez. São os nomes que me lembro. Alguns deles já não estão entre nós, mas fizeram também escolas e tiveram seus discípulos. Em outras formações, gente como Isabel Rios, Marta Hernandez, Robinson Gambarra, Suraya Helayel, Giselle Ferreira, Paula Segadas, Marcia Bonnet, Rodrigo Garcia, Diego Zarcon (hoje também um grande cantaor) e tantos outros que seguiram carreira. Existem outros dos quais não acompanhei porque saí do curso por apenas querer o Flamenco. Mas a grande maioria desistiu por conta das intempéries do mercado, porém alguns estão espalhados Brasil afora e outros no exterior.

Do trabalho como músico, Alberto deixou crias. Alberto Magariños "El Maga", Mara Lúcia Ribeiro, Fábio Nin e Sérgio Otero. Estes são os que tenho certeza.



Depois da rua Bambina, foi para a Casa D'España do RJ e lá realmente conseguiu, a duras penas, solidificar sua Escuela Española de Danzas. Ali montou um atelier de costura onde ela mesma fazia os figurinos financiados pelo casal e que entravam para o acervo do grupo.

parte do Ballet da Casa D'Espanha do RJ

De seus filhos, apenas Andrea segue na dança, pois a atual gestão não consegue conservar na prática os trabalhos do casal divisor de águas na dança espanhola carioca a não ser pelos modismos do flamenco atual; o que se pode lamentar quando o assunto é herança e continuidade do trabalho que eles implantaram no Rio de Janeiro. Mas achei muito humilde escutar que "podemos não saber o que é o Flamenco, mas foi com Mabel e Alberto e vendo shows que descobrimos ter a certeza daquilo que não é Flamenco". Adriana Araújo, nora do casal e esposa do filho Marcelo que me confessou a dificuldade de estabilizar e manter o trabalho deles por conta dos modismos da dança flamenca nos dias de hoje.

Andrea Ortega
Seria conveniente a manutenção deste legado aqui no RJ, pois é importantíssimo para a nossa história da dança. E em nada isso atrapalharia na evolução do flamenco com o formato dos dias de hoje. E isto quem faz hoje em dia é a filha Andrea na Itália, a que segue atuando como bailarina e como professora.

Mabel e Alberto, Carmen Dotto,
Marisa Vásquez, Calpurnia,
Robinson Gambarra, Lúcia
Caruso e Lúcia.
Bastidores do filme
"Manoushe", 1992.

Com a partida de Mabel Martin e seu esposo bailarino e guitarrista Alberto Turina, somente aqueles que levam seus ensinamentos conseguirão dar o devido mérito ao trabalho árduo e duro que eles deixaram. Poucos têm esta escola e, mesmo que seguindo a modernidade que o flamenco tem hoje, nenhum deles esqueceu a escola que aprendeu.

Eu não cheguei a participar do grupo por conta de ter escolhido apenas o Flamenco. Para o casal era de fundamental importância que todos aprendessem a escola  toda e não somente uma delas como eu  escolhi. E esta é outra história que já contei.

Mas deixar esta memória póstuma com o meu olhar em particular sobre Mabel Martin foi a maneira carinhosa que encontrei para deixar seu nome registrado na memória da dança espanhola no Rio de Janeiro.

Ao menos na minha história com o Flamenco seu nome estará sempre presente e tenho orgulho disso. Talvez sem a presença dela e de Alberto em minha vida eu não teria um bom filtro para escolher os caminhos com o Flamenco e danças afins nestes anos todos que me dedico.

As fotos me foram cedidas por alguns amigos e por Lívia Bueno, Andrea Ortega e Marcelo, filhos do casal. Não dá para colocar todas as fotos. Escolhi as que me tocaram e preenchem bem este artigo. Minha eterna gratidão por compartilharem comigo suas fotos e por acreditarem em mim. Aos amigos e colegas contribuintes, gratidão por sua generosidade: Victoria Núñez, Lívia Bianco, Andrea Ortega, Robinson Gambarra, Lúcia Caruso e Giselle Ferreira e Marcelo que hoje dirige a Escuela de Danzas na Casa D'Espanha do RJ.

Não posso deixar de mencionar que por duas vezes, em 1994 e em 2004, Mabel recebeu do Rei da Espanha condecorações pelo seu trabalho em prol da cultura espanhola.








Alberto Turina
e
Mabel Martín

        IN MEMORIAM

E minha eterna gratidão pelo que vocês deixaram plantados na história da Dança Espanhola no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Arte... um fio tênue das emoções

No atual caos que vivemos onde os excessos reinam sem nenhum pudor, sem nenhum limite, com bastante furor e sem critérios a arte, de uma forma geral, também não escapa da diversidade de críticas.


Arte, em suas diversas formas de expressão, serve para retratar as sensações do mundo de quem a expõe através de obras solitárias ou coletivas. Aquilo que literalmente se expõe é porque quer que os outros vejam, gostem ou não, com conhecimentos técnicos ou não e de forma amadora ou profissional os estados da alma humana e suas perspectivas subjetivas daquilo que vive e está ali na sua frente.

O que há de errado nisso? Em meu ver, antes de dar testemunho daquilo que se expõe, vou em busca do sentido da obra, seja ela qual for, para imergir na visão do artista. Quando parece-me razoável fica fácil apreciar independente do gosto pessoal que eu possa ter e ficar ali, vendo até o fim.


Ainda penso e levo no fio da navalha o fato de que se o artista se expõe é porque quer mostrar o que pensa sobre o exposto e se dispõe, ainda que não declaradamente, a apreciações diversas de quem o assiste.

Tenho claro na minha mente quando fui ver o tão polêmico e conturbado Gerald Thomas com sua visão da ópera Tristão e Isolda em 2003. Queria saber por qual razão a grande maioria quase sempre queria linchá-lo. Dito e feito. Esta ópera é lindíssima e como todas as outras tem um fundo romântico, uma história com as três fases convencionais: início, meio e fim.

Onde está o crivo? Surtadamente os quadros eram representados divinamente na voz de seus intérpretes exatamente como dita a história, mas as cenas eram totalmente avessas àquilo relatado na história. A maioria com fundo de desequlibrio sobre o sexo de forma muito froidiana, estados da alma em conflito e inusitadas composições totalmente inapropriadas para qualquer história. Parece que este artista não suporta o fato de tantas coisas belas serem boas para a alma e foi destruindo e desconstruindo o trabalho alheio. Que criasse sua ópera então!  Resultado: a cada intervalo levas do público saíam do teatro com raiva, ódio ou às vezes com crises de risos. Eu saí no segundo intervalo ouvindo um colega de público se questionando por qual razão Gerald Thomas odiava a vida e por quê não fazia com ele mesmo o que fazia com as obras alheias...cortar-se à carne e sangrar até esvair toda sua vida. Embora tenha feito parte do mesmo gosto da grande maioria, este comentário me causou um grande susto e foi a partir daí que comecei a olhar aquilo que exponho com mais carinho, com mais exigência e com mais consciência.

O pior disso tudo é o peso e a relevância que isso teve no processo do ensino nas salas de aula que tenho estado, pois sou instrutor de uma dança com matriz étnica e que tem suas raízes calcadas na voz e no sofrimento de um povo mesclado pela história, o andaluz.


Entrei num patamar onde me choca ao ver que esta arte tem um profundo respeito por aquilo que expressa as vivências, que são reais e existem, e que muitos brincam de representá-la. E daí não me interessa se aqueles que se expõem são amadores ou profissionais e nem o estado técnico do qual se apropriam em suas performances, mas sim do respeito à história de um povo ao qual não viveu ou nem pertence, aos estados das penas e das alegrias que representa sua arte, enfim aos estados da alma humana que aquele povo expõe nesta arte.

Aprofundei os estados dos sentimentos diversos que esta arte expressa e, como instrutor, tento despertar isso a quem estuda comigo respeitando suas limitações através das conquistas individuais durante os estudos de cada um. Como bem disse alguém que marcou meu estudo, "devemos estudar as diversas técnicas de dança para melhor liberar as emoções". Me marcou no filme Carmen, de Carlos Saura, o que disse a maestra Maria Magdalena na aula de castanholas que "a técnica existe à serviço de sua arte".


Quem sou eu? Apenas um artista com minhas (de)limitações que respeita as diversas formas de expressão desta arte mas com a consciência de que não brinco com ela e nem a desconstruo como muitos tem feito em torno dela...imagino em torno das outras artes!

A linguagem da arte é extensa e sempre será prazeroso aos olhos e ouvidos, ao menos aos meus, quando ela atinge e consegue expressar, independente da sua forma e textura, extamente aquilo que ela diz.


E nem por isso sou gênio, senhor dela ou mesmo o supra sumo do ensino dela. Esta arte tem expressões muito particulares de cada artista e isto apresenta-se de diversas formas hoje em dia. Ótimo! Ninguém sente a mesma emoção da mesma forma, mas com certeza a expressa do seu jeito e não brincando de expressar ou apenas no divino processo de exploração de sua plasticidade cênica.

Aliás, quem brinca com as emoções? Quais os seus limites? A Arte está aí pra isso. Ela diz "olhe, escute e sinta o que eu vejo, escuto e sinto".

Então se segure com as diversas formas de se expressarem sobre seu trabalho, seja ela apenas para lhe agradar ou seja ela para te dar relevâncias honestas sobre aquilo que diz esta arte e de como você se expressa nela aquilo que ela diz.

Arte é assim repleta de facetas, dogmas sociais que permeiam as visões do artista e o faz criar uma obra, sem plágios, sem cópias, sem inseguranças...

Mas seja fiel a ela e domine melhor o veículo de exposição e deixe sua alma sair nela.

É isso...

E daí vem a solitude "com" e "na" vida de um artista.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Heróis da resistência...a sombra que não existe.

Vivemos momentos tensos no mundo todo mais uma vez. Momentos estes em que todos os excessos gritam aos quatro cantos do mundo e exploram todos os setores da vida pessoal, da fé e da sociedade.

Aqueles valores passados pelos pais ou mesmo pela fé são colocados à prova de sua prática e existência. Nunca a externalização da conduta e do caráter ficou tão em evidência como agora. O que choca é o quanto de perversidade acontece no mundo e o quanto de egoísmo predomina naqueles que representam suas populações se colocando acima de tudo isso.

O quanto dói ver os outros sofrerem pelas escolhas mal feitas e o quanto se pode, ou melhor, se deve fazer pra ajudá-los ou amenizar o sofrimento sem se macular?

E fica no ar uma pergunta refletida no espelho... e eu, errei aonde? Alguém se dispõe a me ajudar?

Lidar com estas adversidades requer total convicção da consciência de sua composição astral e física e de sua importância no cosmo. Entender até onde seus atos contribuem para este  momento de forma positiva ou negativamente e o quanto isso lhe traz a tão falada "paz de espirito"se faz necessário.

Na verdade tudo isso sempre existiu e apenas está mais exposto agora. Nos passados de nossos ancestrais tudo isso sempre foi abafado e escondido da grande maioria. Cabe entender então aonde está Deus se ele é Onipotente e Onipresente e por quê não resolve isso tudo? E seu "anjo decaído" com nome de tamanha significância que chega a cegar de tão luminoso? Sim, este é o significado de Lúcifer. Aliás, uma concepção muito romântica sobre o bem e o mal.

Onde estão os pregadores do Amor tão puro que chega a ser espiritual? Será que os atuais líderes, ou melhor, representantes religiosos pregam hoje a máxima que todos os grandes do passado pregavam?

Amor... é o que falta.

Paz... é o que precisamos.

No mundo todo!

Mas como revelavam muitos pensadores, o Caos não é o fim, mas o princípio de uma ordem. Talvez a nova ordem seja o que estar por vir depois de tanta desordem.

São momentos onde os valores sobre a vida se estremecem nas escolhas que fazemos a cada dia. É sobre as consequências destes valores escolhidos que sentimos o peso da maioria reinar no mundo atual.

Olhando para trás numa curiosidade da história da humanidade, a própria natureza se encarregou de passar a sua vassoura arrebatando gente de todo tipo em prol de uma nova chance a mais e um período mais tranquilo. É isso que a deusa mitológica indiana Kali faz...limpa.

Será? O que você pensa e deseja da vida? E o que faz em prol disso e da melhoria do mundo?

Como eu queria que os heróis das histórias em quadrinhos existissem!

Aliás, heróis usam da força física, batem, espancam e até matam se necessário para manterem a ordem... e são heróis! Nenhum deles, pelo que me lembro, tiveram nascimento triunfal.

Onde estão os heróis?

Não vejo nem a sombra, mas eles existem sim! Aí, dentro de cada um de nós e cada um com seu super poder...talvez em estado latente mas existem sim. Por isso não possuem sombras.

Busque o seu!

Eu encontrei o meu.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Revendo o passado dos Tablados

Tantas inovações, tantas técnicas inseridas e fusionadas, influências de diversos estilos e às vezes uma fuga do folclore com ares modernos se desligando do visual convencional das dançarinas de flamenco.


Sim, isto foi o que ocorreu com o modismo ditado na Espanha pelos mais recentes artistas e que está dando uma reviravolta agora... Por quê?


A mudança na forma de bailar requisitou nova modelagem e tecidos que servissem melhor aos movimentos do corpo e adotaram a diversidade das malhas. As saias ficaram mais estreitas, menos armadas e apenas os abanicos, pericones e mantones se mantiveram com o passar do tempo. Até mesmo os sapatos evoluiram para novas formas, novos modelos, cores e padronagens atingindo também a convencional bota masculina. Castanholas então, nem se fala! Isso é ruim? Não!


Mas a arte Flamenca tem sobrevivido ao longo de sua história por sempre se reinventar e resurgir das próprias cinzas como a mítica ave Fênix.

 

Porém sem muito controle, os extremos desta evolução nos figurinos tem feito com que muitos artistas e muitos figurinistas releiam as roupas dos antigos tablados.


Está de volta o penteado  "à la Teda Bhara" dos anos 20, o uso das flores no alto da cabeça, o avental e mesmo os vestidos com muitos babados ou modelos mais rocieros além da tradicional bata de cola.


Com os olhos no passado, mas com os moldes do século XXI a roupagem tem trazido à tona as suas raízes nos trajes... O bailaor José Galvan, pai dos irmãos Pastora e Israel, fala em um dvd sobre a forma dos antigos tablados. Neste dvd os trajes lembram muito os antigos.




E eu gosto muito!



Fotos retiradas do Google.